Café cai ao menor valor em 15 meses e freia mercado físico no Brasil

31 de outubro de 2022

A queda dos preços do café no mercado internacional deixou o mercado físico brasileiro praticamente paralisado nesta semana, com a realização de poucos negócios. Em boletim semanal, o Escritório Carvalhaes destaca que os compradores tentaram repassar essas baixas às ofertas feitas aos produtores, que resistem em vender pelas cotações atuais.

“Os compradores repassam as quedas na ICE (Bolsa de Nova York) para suas ofertas no mercado físico brasileiro, na expectativa que os cafeicultores brasileiros aceitem vender nesses preços, apesar de terem produzido bem menos café e a custos bem mais altos dos que imaginavam”, ressalta a empresa, no comunicado.

Nesta sexta-feira (28/10), os contratos futuros de café arábica em Nova York caíram 5%, com os preços chegando ao menor nível em um período de 15 meses. O contrato para entrega em dezembro deste ano fechou a sessão a US$ 1,698 por libra-peso. A queda foi de 11% na semana e de 25% nas últimas quatro semanas.

Analistas de mercado apontam que os preços vêm sendo pressionados pela expectativa de maior oferta do Brasil. De outro lado, os operadores acompanham os rumos da economia global e que impacto um freio na atividade econômica pode ter sobre o consumo da bebida.

Na sexta-feira (28/10), o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) ficou abaixo de R$ 1.000 a saca de 60 quilos pela primeira vez desde 21 de julho de 2021, quando ficou em R$ 960,50. A referência fechou a R$ 987,53 a saca, com uma desvalorização de 4,85% em relação ao dia anterior e uma retração acumulada de 23,26% no mês.

Em meio a este cenário, de acordo com Escritório Carvalhaes, um cereja descascado de bom preparo era cotado entre R$ 1.140 e R$ 1.200 a saca de 60 quilos. Um café classificado como fino a extrafino de Minas Gerais ou da Mogiana Paulista estava entre R$ 1.100 e R$ 1.140 a saca. Já com uma bebida mais dura, de xícara mais fraca, os preços variaram de R$ 1.050 a R$ 1.080 a saca.

“Os cafeicultores, com a produção deste ano bem menor que a estimada e custos de produção em alta, resistem em vender o que restou da colheita de 2022. Sabem que se venderem aos preços oferecidos, aumentarão e consolidarão so prejuízos, ficando sem recursos para manterem os cafezais até a próxima safra”, analisa o Escritório Carvalhaes.

Em seu boletim, a empresa ressalta que as chuvas ocorridas em outubro trouxeram uma expectativa de uma florada com melhor pegamento e, consequentemente, uma produção maior para 2023. No entanto, citando uma análise da Fundação Procafé, pondera que a safra de café arábica não deve se recuperar com a intensidade esperada pelo mercado.

Do lado da demanda, mesmo com os temores relacionados ao andamento da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e aos rumos da economia global, não há sinais de queda no consumo de café, avalia a empresa, sediada em Santos (SP).

Especulação

O Conselho Nacional do Café (CNC) avalia que a especulação no mercado de café está prejudicando os produtores. Em posicionamento divulgado recentemente no site oficial da entidade, o presidente do CNC, Silas Brasileiro, destaca que a primeira florada do café, ocorrida em agosto, já foi prejudicada. E a segunda também está comprometida.

Segundo o executivo, o entanto, as previsões divulgadas no mercado internacional sobre a safra do Brasil vão na contramão da realidade vivida pelo produtor brasileiro. Esses números visam atender apenas o interesse do consumidor, “sufocando” os produtores.

“Temos visto enorme pressão sobre os preços, faltando o entendimento dos compradores de que estão trabalhando contra eles próprios, sufocando os produtores que hoje cultivam com elevados custos de produção, com a indefinição do mercado e com a falta de renda. É impossível não atentar para o efeito climático extremamente danoso para a produção de café”, diz ele.

Foto: Reuters

 

Fonte: Globo Rural